Falar sobre preconceito é muito complicado. Não me sinto à vontade, ainda mais nos dias em que vivemos, onde tudo que falamos parece soar como preconceito. Até a palavra “preconceito”, não escapa ao preconceito. Ser preconceituoso não escapa ao preconceito dos demais. Não se tem mais o direito de “não gostar de...”. Tudo soa como preconceito!
Se você gosta de rock e não gosta de pagode ou samba, é porque você é um branco que gosta de música de branco e não suporta pagode ou samba porque é musica de negro. Isso porque o rock nasceu do blues que era música para negros do sul estadunidense.
Preconceito contra roqueiros que são acusados de preconceituosos por não gostarem de samba e de pagode! Mas já se perguntaram porque uma pessoa que gosta de pagode ou samba não gostam de rock? Ah, porque é só barulho para um bando de drogados! E isso também não é preconceito? Como se também não existissem usuários de drogas em escolas de samba e rodas de pagode.
O preconceito acontece até mesmo dentro de um núcleo comum. Vejamos o meio da música caipira, que alguns famigerados resolveram rotular de música raiz porque soa mal para os bonitinhos do movimento sertanejo universitários, e isto é mais um rótulo, de serem chamados de músicos caipiras! Soa mal na mídia! Quando se pergunta a um jovem se ele gosta de música sertaneja, ele de imediato te responde...”Eu curto sertanejo universitário”, menos música caipira! E isso não é preconceito? Pior dentro do mesmo núcleo cultural!
Seguindo essa linha, há quem tenha preconceito para com a bossa nova. Para muitos, música para pseudo-intelectual e bicha, sem contar no fato de muitos dizerem por aí que dá sono! Olha só o preconceito de novo.
Em primeiro lugar, não sou fã de bossa nova, mas sei reconhecer o valor dela. Realmente não é uma música para adeptos de cultura pop. Talvez realmente seja uma música para ouvidos mais refinados. Coisa que eu não tenho a pretensão de dizer que tenho, mas até sair por aí dizendo que dá sono, que é música para pseudo-intelectual e para bicha... Ah, é preconceito também! Mas antes que alguém fique indignado, não chegou a hora de falar sobre gays. Ainda não.
Os funks de periferia que invadiram todos os meios sociais. Claro que não gosto deles, mas é uma opção minha. Não quer dizer que eu não possa ilustrar o preconceito existente contra este movimento e nem deixar de exercer o meu direito de “não gostar de...”.
Este é também um exemplo de que acontece preconceito dentro do mesmo movimento musical, ou pelo menos dentro da mesma nomenclatura, afinal tudo é rótulo! Quem gosta dos funks de antigamente, os que curtiram e curtem até hoje James Brown, Zapp, entre outros, alegam que isso que toca nos bailes em periferia pode ser qualquer coisa, menos funk. Mas é esse o rótulo que a mídia deu! A mesma mídia que promoveu o - segundo alguns - funk de verdade!
Ah, mas virá alguém me criticar por que dirá que ouve MPB e não esse lixo musical, do qual eu mencionei até agora. Ora, a bossa nova não precede a MPB? E tirando o rock que não faz parte das nossas origens musicais, samba, pagode, sertanejo e funk de periferia não são cantados em português?
Vamos mudar um pouco o foco. Agora é o que mais gosto de discutir. A guerra de torcida do momento. Negros, gays, brancos, religiosos e etc!
Aqui eu vejo em primeiro lugar, o preconceito confundido em inúmeras vezes com o direito de “não gostar de...”.
Vamos lá! As coisas chegaram a tal ponto que se eu estiver com um amigo negro, e olha que tenho muitos e se estão comigo é porque gostam de mim, e fizer uma brincadeira com ele e outro que não me conhece, passar e se sentir ofendido com a brincadeira, eu estarei em maus lençóis! Pelo menos terei que me explicar com a justiça! Estão confundindo as coisas! Tudo virou preconceito, até uma brincadeira de amigos! Já perdi a conta de quantas vezes fui chamado de branquelo, magrelo, e nem por isso saí por ai sentindo pena de mim mesmo!
Isso me soa mais como um complexo existencial do que realmente preconceito! Uma solução! Leia mais, sinta-se culto, e esse preconceito contra sua própria etnia de origem vai acabar! Esqueçam essa cultura barata de que “eles são maus e escravistas e eu sou bom porque fui escravizado!”. Em primeiro lugar, eram negros que capturavam negros menos capacitados tecnologicamente e vendiam aos portugueses no período escravista de nossa história!
Isso não levará você, negro a lugar nenhum! Afinal de contas, vocês são tão humanos e dignos de respeito quanto um branco!
A questão gay não é muito complicada! Basta mostrar-se digno também! Há muito gays cultos e grandes expoentes inclusive na literatura científica. Mas o grande problema é a reivindicação por tratamento igual aos demais. Claro que há preconceito de todos os lados. Os brancos, os negros, asiáticos e demais etnias, todos possuem pessoas com preconceito contra gays. Mas novamente eu exerço meu direito de “não gostar de...”.
Se eu evito lugares freqüentados por gays, se eu tenho planos para minha filha que não inclua a cultura gay na vida dela, não quer dizer que não os respeito. Os gays merecem o mesmo respeito que os negros, brancos e asiáticos por que são seres humanos, e não porque são gays! Há inclusive citações de gays como o Clodovil Hernandes que ao ser indagado em um programa de tv, porque não freqüentava a Parada Gay, e o mesmo respondeu: “Sou gay, não vulgar!”. Aí eu pergunto para algum gay que possa vir a se sentir ofendido. Parada Gay é mesmo um movimento cultural, ou apenas exploração econômica utilizando-se da vulgaridade? Isso não é preconceito!
Agora, os religiosos. Outro exemplo de que ocorre preconceito mesmo dentro de um núcleo social.
Dentro da religião cristã encontramos preconceito de católicos contra evangélicos, de evangélicos contra espíritas, de evangélicos e católicos contra outras religiões que não sejam cristãs, contra o judaísmo, islamismo e por último de evangélicos contra católicos!
A única coisa que posso dizer, religião é algo muito particular, cada um tem o livre arbítrio para professar sua fé! Fiquem quietinhos no seu canto! Cada um, dentro de si, sabe melhor do que ninguém, o que necessita de Deus! Deus não precisa de torcida organizada por aqui!
Mas vou ter que mencionar um outro ponto! Os que se dizem ateus!
Imaginem o preconceito que uma pessoa que estudou, leu inúmeros livros, encontrou outro meio de vida que não seja o modelo de família cristã propriamente dita, não sofrem de quem se diz religioso? Novamente eu digo! Livre arbítrio! Ninguém é obrigado a ser religioso e muito menos acreditar em algo para ser respeitado! Ah! Imagina se eu mencionar um satanista?
Uma pessoa é digna de respeito não porque é religioso ou não, mas porque é ser humano!
Olha a que ponto se chegou! Uma guerra que se estendeu até o cenário político, onde representantes gays e representantes religiosos incendeiam uma bravata, o qual não levará a nação a lugar algum.
Na verdade só estão causando mal estar na sociedade e gerando um conflito que está cada vez mais se acirrando! Será que nunca iremos aprender com os fatos históricos? Exemplos é o que não faltam!
Em uma sociedade onde os movimentos culturais são formados por uma pancultura, ou seja, uma diversidade de movimentos culturais que advém de inúmeras células culturais existentes na sociedade brasileira, se faz necessário respeitar o espaço de cada um.
A sociedade brasileira é formada pelas mais diversas culturas mundiais. Somos talvez o país mais miscigenado do mundo e por isso há tantas células culturais. Há que se pensar nessa diversidade cultural e entender de uma vez por todas que, mais do que nunca, devemos respeitar uns aos outros, e que cada um é digno de escolher o que é melhor para si.
Quando falamos em preconceito, é necessário pensar antes se também não há uma pré-disposição pelas partes em se sentir ofendidos!
O exercício do direito de “não gostar ou gostar de...”, é um direito de cada um de nós, uma essência singular. Que devemos guardar para nós. Sem explorá-la, disseminá-la, enfim, guardarmos para nós!
Desde que não causemos mal para o próximo, exerçamos sim o “direito de não gostar de...”.
Isso é o maior exemplo de democracia que poderíamos viver!
By : Márcio Fernandes








Parabéns pelo texto. Muito claro.
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